Estágio depois da formação. Será ainda um ‘plus’?

Apesar de uma pandemia, que acabou por suspender alguns programas de estágios e mudar o formato de outros, na hora de recrutar a importância que as empresas dão a estas experiências mantém-se.

Ainda que não sejam a única forma de começar o percurso profissional depois da formação, os estágios são uma porta de entrada no mercado de trabalho. Muitas vezes mais rápida, direta e que pode revelar-se determinante para a continuação numa empresa. E para as organizações uma forma de agarrar o talento que precisam para se renovar. E a pandemia? A única coisa que veio alterar, foi o formato porque a importância mantém-se.

“Não considero que a pandemia tenha alterado a importância deste tipo de programas, uma vez que durante este período pandémico as empresas continuaram a fazer programas de trainees. Mas alterou o seu funcionamento, que passou a ser maioritariamente online. O modo remoto teve o mérito de permitir que estes programas continuassem a ser desenvolvidos, no entanto teve alguns custos ao nível da experiência do estagiário, pelo fato de não existir a interação num mesmo espaço físico”, adianta Pedro Amorim, managing director da Experis Portugal à Pessoas.

“Um jovem trainee quando embarca neste tipo de programas, quer precisamente o contacto com o dia a dia da organização e com a sua equipa. Isto não significa que não se adapte ao estágio online, mas o desafio é maior e a integração com os colegas mais lenta com um onboarding e um funcionamento em modo remoto. Para além disso, há um elemento de aprendizagem resultante da partilha do espaço físico que também é penalizado. Quando está na sua casa a trabalhar é mais difícil adquirir os conhecimentos resultantes da interação com os colegas e do trabalho em equipa, uma vez que o contacto por via digital é necessariamente mais esporádico e menos imediato”, continua.

O contacto e a experiência de conhecer por dentro a empresa, o negócio e até os diferentes departamentos — que sempre foi uma das grandes vantagens dos estágios — é, neste formato, mais limitada. A interação torna-se mais reduzida e mais superficial, o que pode mesmo “limitar as possibilidades de aprendizagem e experiência” dos jovens, uma das camadas geracionais mais afetadas pela pandemia.

Mas as empresas não duvidam da importância dos estágios, mesmo que o desejo seja voltar ao formato presencial. “Os estágios já eram importantes e continuam a sê-lo. O que aconteceu foi que, com a pandemia, tivemos de nos adaptar ao digital. Mas consideramos que correu bem, uma vez que estes jovens são nativos digitais e para eles é muito fácil esta adaptação. Porém, sentimos igualmente que todos gostariam de passar mais tempo na empresa de modo a favorecer a interação com os diferentes grupos e pessoas“, conta fonte oficial dos CTT à Pessoas.

Nos CTT, o programa de trainee é uma importante forma de entrada na empresa, e beneficia tanto os jovens, como a própria empresa, que passa a conhecer o candidato em ação, o seu perfil, as suas competências, atitudes e valores. “Se corresponderem aos valores da empresa, será certamente um excelente recrutamento, com valor para a empresa e para o estagiário.”

Para além de integrarem projetos em diferentes áreas, os trainees respondem, em equipa, a desafios lançados pelas direções de estratégia e inovação, na procura de uma solução para um serviço ou produto. Este projeto é especialmente importante na medida em que lhes permite um contactar com as diferentes direções, dando visibilidade, networking e conhecimento organizacional. A ‘cereja no topo do bolo’ é, contudo, no final: quando são desafiados a apresentar o projeto às direções envolvidas, ao CEO e a toda a comissão executiva.

Um momento importante, e ao mesmo tempo desafiante, que só quem entra pela via do programa de trainee tem acesso. E é assim que, muitas vezes, se descobrem os melhores talentos. “É importante reter e para isso importa desafiar. Os jovens talentos precisam de ser desafiados e envolvidos na organização e, mesmo assim, muitas vezes são difíceis de reter. Estes jovens talentos procuram novas experiências, novas formas de trabalhar, para eles é importante conhecer diferentes realidades. A nível interno temos de ser um facilitador deste crescimento e desenvolvimento, o mercado está muito ativo e é muito competitivo”, continua a mesma fonte oficial da empresa postal.

Os jovens talentos precisam de ser desafiados e envolvidos na organização e, mesmo assim, muitas vezes são difíceis de reter. (…) A nível interno temos de ser um facilitador deste crescimento e desenvolvimento, o mercado está muito ativo e é muito competitivo.

Fonte oficial dos CTT

No retalho, o grupo Jerónimo Martins é também já profissional nestas andanças. Com um programa de trainees bem consolidado, o grupo aposta fortemente na retenção dos jovens. Na última edição, em 2019, a taxa de retenção dos trainees foi de 90% e a possibilidade de escalar e crescer dentro do grupo é real: “três dos CEO das nossas companhias iniciaram o seu percurso neste programa”, exemplifica Tiago Gonçalves, head of talent acquisition do Grupo Jerónimo Martins. Aliás, a Pessoas falou com dois deles na edição de setembro/outubro, que pode comprar ou assinar aqui. Nesta edição, Isabel Ferreira Pinto (Pingo Doce) e Nuno Begonha (Recheio) contam as suas histórias de progressão de carreira no grupo.

E também nos estágios profissionais a taxa de retenção é elevada. “Procuramos fomentar uma cultura de orientação para resultados, valorização do mérito e desenvolvimento profissional, através de uma gestão de pessoas focada no crescimento de cada um e na promoção de oportunidades dentro da organização. Por outro lado, temos vindo a fazer diversas intervenções nos nossos locais de trabalho para os adaptar àquilo que acreditamos serem as necessidades das nossas pessoas e que a pandemia vem reforçar enquanto fatores distintivos e estratégicos para futuro”, refere Tiago Gonçalves.

Alinhar oferta com exigências atuais

Depois de, em 2020, ter suspendido o recrutamento para os programas de talento jovem, nomeadamente para o “Management Trainee Programme”, o “Student Internship Programme” e o “Campus Ambassador Programme”, o grupo Jerónimo Martins decidiu aproveitar essa pausa para rever e alinhar a oferta às exigências atuais e futuras que o novo contexto — e os próprios jovens — desencadearam.

“Lançámos o nosso ‘Student Internship Programme’, um estágio de verão remunerado com a duração de dois meses, e contamos lançar ainda, até ao final do ano, um conjunto de programas de talento, destinado a este público mais jovem — desde os estudantes que podem ser embaixadores do Grupo Jerónimo Martins na sua universidade, até aos jovens que terminam a sua licenciatura ou mestrado e pretendem integrar o mercado de trabalho”, adianta.

As alterações — fruto da pandemia — aumentaram, sim, a relevância dos programas, “pela oportunidade que dão aos candidatos de terem um primeiro contacto estruturado com o mundo do trabalho, que lhes permite interagir com colaboradores das diferentes companhias do grupo e com diferentes experiências, backgrounds e níveis de senioridade”.

“Estes jovens ganham competências pessoais e profissionais essenciais para um novo contexto e a oportunidade de continuidade no pós-estágio, tanto no imediato como num momento futuro”, acrescenta o head of talent acquisition da Jerónimo Martins.

A Natixis aproveitou também o ano anterior para criar um novo programa de estágios. A “Purple Scan Trainee Edition”, através do qual 84 estagiários tiveram a experiência de integrar a empresa em Portugal em áreas tão distintas como desenvolvimento de software, engenharia informática, direito, finanças, banca, economia e contabilidade. “Além disso, estamos constantemente a acolher estagiários curriculares e temos várias histórias de pessoas que entram com um estágio de verão e acabam por ficar connosco”, salienta Maurício Marques, diretor de recursos humanos da Natixis em Portugal.

É certo que a pandemia privou os alunos de algumas interações com empresas, nomeadamente a nível mais presencial, mas abriu mais as empresas à necessidade de se darem a conhecer no digital, reduzindo as distâncias geográficas entre candidatos e empresas.

Maurício Marques

Diretor de recursos humanos da Natixis

“O facto de estarmos constantemente a crescer e a criar novas equipas faz com que seja comum conseguirmos enquadrar os estagiários de diferentes áreas em posições em aberto, uma vez que são jovens profissionais cujo trabalho ficamos a conhecer e que, conhecendo a empresa, escolhem-na também para começar o seu percurso”, continua o responsável de pessoas do banco francês, onde está a decorrer, atualmente, a campanha “We Want Your Brain”, direcionada para jovens recém-licenciados com formação em diversas áreas — tecnológica, financeira, ciências sociais e humanas — elegíveis para estágios profissionais do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP).

A taxa de retenção dos programas de estágio é também elevada. “Encaramos os programas de estágio numa perspetiva de longo prazo e a prova disso é que temos mais de 85% de estagiários que acabam por ficar connosco, o que diz muito do impacto positivo destas experiências”, adianta, salientando também o impacto da pandemia no sentido de aumentar a pool de talentos.

 

“É certo que a pandemia privou os alunos de algumas interações com empresas, nomeadamente a nível mais presencial, mas abriu mais as empresas à necessidade de se darem a conhecer no digital, reduzindo as distâncias geográficas entre candidatos e empresas”, considera Maurício Marques.

Em áreas mais específicas como a tecnológica, onde o talento é escasso, atrair estagiário, sobretudo durante a formação, é uma excelente forma de ir criando pools de talento futuro que possam responder às necessidades de desenvolvimento das organizações.

“Fruto da atual escassez de talento, principalmente em áreas mais tecnológicas, é necessário que as empresas possam antecipar as suas necessidades e comecem a construir o talento de que vão necessitar no futuro, criando pools de talento forte através dos programas de trainees“, refere Pedro Amorim.

Fruto da atual escassez de talento, principalmente em áreas mais tecnológicas, é necessário que as empresas possam antecipar as suas necessidades e comecem a construir o talento de que vão necessitar no futuro, criando pools de talento forte através dos programas de trainees.

Pedro Amorim

Managing director da Experis Portugal

Nestes casos, do setor tech, é ainda mais importante que as empresas trabalhem numa lógica proativa e de antecipação. “Desta forma, conseguem uma real vantagem competitiva face a outras empresas que recrutam por reação, apenas quando têm vagas abertas”, acrescenta o líder da empresa especializada em recrutamento.

Estágio, check. E agora?

Se depois do estágio não houver oportunidade de permanecer na empresa, não se preocupe, pois, segundo os especialistas, é uma experiência que enriquece qualquer currículo e pode facilitar a procura de emprego. Nos CTT, por exemplo, as “pequenas experiências” são um critério importante no processo de seleção e recrutamento de novos talentos.

“Ter realizado um estágio de verão na empresa X ou Y é importante, significa que abdicaram do seu verão e que investiram no seu percurso, no contacto com o mundo das empresas. Uma experiência internacional também é valorizada. Somos um todo, todas as experiências servem para melhorar a relação com os outros, o trabalho em equipa, a comunicação, a adaptabilidade, resiliência e muitas outras competências”, revela fonte oficial da companhia.

A Natixis partilha deste pensamento. Embora não se restrinja a esta experiência, a organização privilegia “pessoas com forte apetite por se desenvolverem, com diferentes backgrounds e experiências profissionais diversas”, algo que é válido para todos os níveis de senioridade, destaca o diretor de recursos humanos.

Para Tiago Gonçalves os estágios incentivam o desenvolvimento de competências, nomeadamente a capacidade de adaptação a diferentes equipas, personalidades e formas de estar. “Competências estas que iremos sempre necessitar durante o nosso percurso profissional futuro”, diz o head of talent acquisition da Jerónimo Martins.

Investir num estágio numa área que pode até não ser a primeira opção do jovem pode ser interessante para o seu percurso profissional. “Considero pertinente, inclusive, a realização de um estágio em áreas que não seriam a priori de interesse do jovem, de forma a que possa avaliar outras possibilidades, completar conhecimentos e consolidar aprendizagens”, refere Pedro Amorim.

“É ainda de extrema importância para os jovens perceberem a dinâmica da organização e aquilo que lhes espera no mundo do trabalho. Estes estágios são enriquecedores, não só em termos de conhecimentos, como também na aquisição de soft skills, cada vez mais importantes, hoje e nas profissões do futuro“, finaliza.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história e às newsletters ECO Insider e Novo Normal.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Estágio depois da formação. Será ainda um ‘plus’?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião