Centromarca defende intervenção da ASAE e AdC na central de compras entre Auchan e Intermarché
Associação das empresas de produtos de marca tem reservas sobre a nova plataforma e lembra histórico efémero e de "tensão no mercado" português. Diretor alerta ao ECO para enredo internacional.
A Associação Portuguesa de Empresas de Produtos de Marca (Centromarca) tem reservas sobre a nova central de serviços de negociação de compras em Portugal e apela ao “acompanhamento atento” por parte da Autoridade da Concorrência (AdC) e da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE).
A Centromarca está apreensiva em relação às consequências desta plataforma para negociar com fornecedores criada entre os grupos Auchan e Mosqueteiros, que detém os supermercados Intermarché. Em declarações ao ECO, o diretor-geral da Centromarca, Pedro Pimentel, explica que as tentativas anteriores foram “efémeras” e pede a monitorização dos reguladores competentes para “certificação”.
“Infelizmente, o histórico que temos destas ações, quer em termos nacionais, quer em termos internacionais, são muitas vezes relativamente efémeras. Processos pouco extratores de valor e de transferência intensiva de vantagens para os consumidores”, afirma Pedro Pimentel, esclarecendo que a ideia, em teoria, tem legitimidade e legalidade. Resta saber como será a operacionalização e evitar riscos.
“Na prática, este ganho de competitividade ou tem um efeito prático no consumidor ou fica, meramente, dentro dos elos da cadeia. Ou seja, alguém fica com poder reforçado e alguém perde. O que gostaríamos que acontecesse era um efetivo ganho de eficiência e que as vantagens obtidas, por dois operadores muito relevantes, fossem transferidas para o consumidor”, esclarece.
Se os ganhos com a central de compras tiverem consequências benéficas para os consumidores a Centromarca tem uma “posição muito favorável” sobre a mesma, mas estará contra for para “tentar ganhar poder negocial adicional com os fornecedores para uma rentabilidade maior da operação” e admite apresentar uma queixa à AdC, como fez no passado.
“Não foi apresentada nenhuma exposição especificamente sobre a constituição da Connexio. Se entendermos que as autoridades não estão, proativamente a dar essa atenção e acompanhamento, pode justificar-se apresentar uma nova exposição”, disse Pedro Pimentel.
A situação remonta a 2009, quando a Centromarca apresentou uma denúncia à AdC a questionar o acordo Intercompra – sociedade por quotas constituída em partes iguais pelos grupos Auchan e Makro – por considerar que “a proposta de acordo dirigida aos fornecedores e as suas consequências levantam dúvidas importantes do ponto de vista jus-concorrencial”.
Neste caso, Pedro Pimentel mostra-se ainda preocupado com o facto de as duas empresas terem outra central de compras internacional. “A Connexio é uma espécie de escritório para a negociação em Portugal, mas ela está integrada Aura Retail a nível internacional. Isso levanta logo uma questão sobre o perímetro da negociação. Se eu sou uma empresa internacional ou exportadora, que hoje já tem de negociar com esta entidade de cima, como é que depois isto se joga com a entidade nacional para que não haja duplicação de pedidos e exigências?”, questiona-se sobre o assunto.
O organograma não fica por aqui. A Aura Retail faz parte de uma outra central chamada Epic Partners, da qual fazem parte outros retalhistas, entre as quais a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce. Segundo o líder da associação das empresas de produtos de marca, “não se pode ficar com a ideia de que é algo aqui do burgo”, porque merece uma reflexão superior dada a “maior emanação de uma negociação internacional que hoje existe e que é muito poderosa“.
O que é uma central de negociações?
Afinal, o que é uma central de serviços de negociação, como a que a Auchan e Intermarché apresentaram na sexta-feira? É uma forma de fazer encomendas aos mesmos fornecedores com maiores vantagens. Imaginemos o seguinte cenário: duas empresas vão comprar 100 itens e, portanto, cada uma delas negocia na base do 100. Porém, caso se juntem, passam a poder dizer que querem 200, negoceiam os termos em grupo e a priori obtém maior capacidade de compras. Na hora de assinar o contrato, não o fazem conjuntamente.
Estamos a falar de duas entidades que valem cerca de 7% (cada) do mercado. Querem negociar como se fossem 15% do mercado, mas continuarão a negociar sobre contatos diferentes, plataformas diferentes, entregas e condições promocionais diferentes.
InterCompra e Cindia causaram “tensão no mercado”
A dupla de parceiros do retalho tem currículo nesta área. Tanto o Intermarché como o Auchan tentaram criar plataformas deste género com outros hipermercados, há 11 e 17 anos, respetivamente. Em 2015, Os Mosqueteiros lançaram a Cindia (Central de Negociação Independente) com a espanhola DIA – Distribuidora Internacional de Alimentos, que operava em Portugal através da insígnia Minipreço, entretanto adquirida, precisamente, pelo Auchan.
Seis anos antes, em 2009, foi a vez do Auchan unir-se à Makro na InterCompra, que acabou por ser dissolvida e substituída pela U2A, uma central exclusiva da marca para gestão de compras nos seguintes mercados: Portugal, Espanha, França, Luxemburgo, Hungria, Polónia, Rússia, Ucrânia e Roménia.
“O quadro de montagem dessas entidades causou tensão no mercado pela forma de tentar obter vantagem negocial adicional, porque estão juntos, mas no fundo é uma junção que depois não existe, porque é 1+1 e continuam a fazer o seu trabalho [compras] em separados. Anos depois, essas centrais terminaram e ficaram com uma posição concorrencial ainda pior do tinham”, refere ao ECO o diretor-geral da Centromarca.

Na perspetiva da associação, a nova central (Connexio) deve contribuir para o equilíbrio e sustentabilidade do setor, gerando sinergias na lógica de triple win: criar valor ao longo da cadeia de aprovisionamento, garantir condições equilibradas e sustentáveis para os fornecedores e resultar em benefícios concretos para os consumidores.
Estas entidades estão sempre interessadas em investir nos seus clientes e esse investimento depende da contrapartida que é dada em termos de fomento de negócio, inovação, diversificação. Se isso for conseguido, estaremos cá a bater palmas e a agradecer. Se não for esse o caminho, dificilmente terá impacto positivo.
A Centromarca mostra-se ainda disponível para dialogar com todos os stakeholders, acompanhando de forma próxima a evolução desta iniciativa e o seu impacto real no equilíbrio das relações comerciais e na sustentabilidade do grande consumo em Portugal. “A criação de condições de reforço de competitividade por parte dos operadores do retalho, num mercado que é muito competitivo, é sempre um ponto interessante. Acaba por ser positiva a junção de dois operadores que têm uma presença de marca nas prateleiras completamente diferente de todos os outros, onde a marca própria é rei e senhor“, realça Pedro Pimentel.
Fundada em 1994, a Centromarca reúne mais de 60 associados, que detêm mais de 1000 marcas, empregam cerca de 28 mil pessoas, representam 7,5 mil milhões de euros de volume de negócios e geram uma receita fiscal para o Estado de 2,2 mil milhões de euros.
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