Portugal prepara-se para pagar o empréstimo a 10 anos mais caro em 12 anos
A guerra no Médio Oriente vai custar caro ao Tesouro. Esta quarta-feira, Portugal pagará cerca de 3,5% para emitir dívida a 10 anos, o valor mais elevado desde que saiu do resgate da troika.
- A guerra no Médio Oriente está a aumentar significativamente o custo de financiamento da República, com os leilões de obrigações do Tesouro a atingir taxas recorde em muitos anos.
- A yield das obrigações do Tesouro a 10 anos negoceiam nos 3,53%, refletindo uma pressão inflacionária e uma reavaliação do risco soberano na Zona Euro.
- Embora Portugal tenha garantido 35% do financiamento anual, a subida das taxas de juro poderá aumentar os encargos da dívida pública nos próximos meses.
A guerra no Médio Oriente prepara-se para passar uma fatura ao Estado. Esta quarta-feira, pelas 10h30, o IGCP vai realizar um duplo leilão de obrigações do Tesouro a 10 e a 14 anos com um montante indicativo global entre 1.250 milhões e 1.500 milhões de euros, num momento em que o custo de financiamento da República atinge níveis que não se viam há vários anos.
Com as obrigações do Tesouro a 10 anos a negociarem nos 3,53% no mercado secundário, a taxa que deverá resultar do leilão desta manhã coloca a emissão como a mais cara num leilão recorrente da República em 12 anos. E o responsável é o mesmo que desde finais de fevereiro tem agitado os mercados de dívida soberana em toda a Zona Euro: o conflito armado no Médio Oriente, que continua a alimentar expectativas de inflação mais elevada e a forçar uma reavaliação do preço do risco.
Será assim um salto expressivo que os números tornam difícil de ignorar. No último leilão de dívida a 10 anos, realizado a 11 de fevereiro, o IGCP emitiu 673 milhões de euros com uma taxa média ponderada de 3,142%. Significa que, esta quarta-feira, em menos de dois meses da última operação com características semelhantes, o Tesouro pagará mais 39 pontos base.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir a tabela.
Trata-se de um agravamento que reflete, em larga medida, a turbulência desencadeada pelos ataques dos EUA e de Israel ao Irão e as suas consequências sobre as perspetivas de inflação e de política monetária na Zona Euro.
“A justificação é mesmo a expectativa de inflação mais alta decorrente do choque petrolífero e que poderá, espera o mercado, resultar numa política monetária mais restritiva”, refere Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros, salientado que “estamos a falar de fatores externos”.
Recorde-se que antes dos dois leilões que terão lugar esta quarta-feira, a República realizou outras duas operações de financiamento desde que eclodiu o conflito no Médio Oriente – a 8 e 9 anos, com taxas acima dos 3% –, numa sequência que regista custos sucessivamente mais elevados. A conta está, por isso, a ficar mais pesada.
Para encontrar um leilão recorrente de obrigações do Tesouro a 10 anos com uma taxa mais elevada do que a que se antecipa para esta quarta-feira é preciso recuar mais de uma década: a 23 de abril de 2014, quando Portugal pagou 3,59% para emitir 759 milhões de euros, numa altura em que o país ainda estava sob tutela da troika e os investidores exigiam um prémio de risco considerável para emprestar ao Estado português.
Mais de uma década depois, as circunstâncias são bem diferentes. O país ultrapassou a crise, melhorou sucessivamente o seu rating de crédito e chegou a emitir dívida a taxas próximas de zero. “A posição de endividamento da República continua a ser confortável, seja em termos de taxa de juro média de financiamento, curva de maturidade e acesso ao mercado”, destaca ainda Filipe Garcia. Porém, a guerra volta a encarecer o custo de endividamento e com isso a pressionar as contas públicas.
Para o leilão a 14 anos, o cenário não é muito diferente. Com a OT 3,375% 15jun2040 a negociar nos 3,83%, é preciso recuar até 3 de setembro de 2014 para encontrar uma emissão de dívida de prazo semelhante com uma taxa superior.
Incluindo nesta análise também operações sindicadas a 10 anos, o patamar mais alto foi atingido a 10 de janeiro de 2017, quando o Tesouro emitiu 4 mil milhões de euros com uma yield de 4,227%, num contexto de mercado completamente diferente do atual.
Para o leilão a 14 anos, o cenário não é muito diferente. Com a OT 3,375% 15jun2040 a negociar nos 3,83%, é preciso recuar até 3 de setembro de 2014 para encontrar uma emissão de dívida de prazo semelhante com uma taxa superior: nessa data, a República pagou 3,9% numa operação sindicada a 15 anos que resultou na colocação de 3.500 milhões de euros.
O leilão mais recente neste segmento, realizado a 8 de maio de 2024, resultou na emissão de 608 milhões de euros com uma yield de 3,297%, que se traduz num custo de 59 pontos base abaixo do custo esperado para o leilão desta quarta-feira.
O encarecimento do crédito soberano não é um fenómeno exclusivamente português. Desde 27 de fevereiro de 2026, o dia imediatamente anterior aos primeiros ataques dos EUA e Israel ao Irão, as yields das obrigações a 10 anos subiram de forma transversal em toda a Zona Euro.
- Na Alemanha, a yielddas Bunds a 10 anos, o referencial mais utilizado pelos investidores para aferir o risco soberano europeu, deixou os 2,65% há pouco mais de um mês para negociar atualmente perto dos 3,1%, o nível mais elevado desde junho de 2011.
- Em França, a subida foi ainda mais acentuada, com a yield a 10 anos a disparar mais de 57 pontos para quase 3,8%, o valor mais elevado desde junho de 2009.
- Já os títulos espanhóis negoceiam nos 3,58% e Itália nos 3,99%, ambas também com subidas substanciais face ao mesmo período.
Este é um reajustamento que os economistas associam em primeira linha ao conflito no Médio Oriente e às suas implicações para a política monetária europeia. “Às expectativas de subida da inflação – há indícios que estão desancoradas dos 2% de target do BCE – e um aumento brutal da incerteza, pela qual os investidores exigem maior retorno”, sintetiza Pedro Brinca, professor da Nova SBE.
O impacto foi particularmente visível em Portugal no segmento de curto prazo. Segundo dados compilados pelo ECO, entre 27 de fevereiro e 6 de março, o spread das obrigações do Tesouro a 2 anos face à congénere alemã mais do que duplicou, numa variação de 119% em apenas cinco dias, a maior de toda a Zona Euro.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
O movimento, como Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, explicou ao ECO, reflete uma “reavaliação quase instantânea das expectativas sobre as taxas de juro do BCE” que, em poucos dias, passaram de um cenário de cortes para um cenário que desconta uma subida de cerca de 25 pontos base.
O IGCP não ignora este contexto. Segundo o Programa de Financiamento da República Portuguesa para o segundo trimestre, Portugal cumpriu 35% do objetivo de emissão anual de obrigações do Tesouro até ao final de março.
A antecipação de grande parte do financiamento da República no primeiro trimestre é, nas palavras de Filipe Garcia, um amortecedor importante. “Portugal está bem posicionado ao ter assegurado 35% de financiamento em 25% do ano e tem graus de liberdade para gerir as futuras emissões”, notando, contudo, que “em princípio o custo médio irá subir, mas sem colocar pressão decisiva nas contas públicas”, sublinhando ainda que “a subida da inflação também poderá implicar receitas ligeiramente mais elevadas.” Ainda assim, o impacto acumulado não é desprezível.
O boletim mensal de março do IGCP revela que o custo médio de emissão da dívida em 2026 se situava nos 3,1% até esse mês. Com os leilões desta quarta-feira a anteciparem taxas acima dos 3,5%, esse indicador deverá subir nos próximos meses.
Pedro Brinca é claro sobre o sentido desta tendência: “Neste momento estamos a fazer rollover de dívida que estava a 0% com dívida a 3,5%, mais o aumento do stock“, alertando que os dois efeitos combinados (expectativas da inflação e refinanciamento de dívida) “devem aumentar umas décimas nos encargos da dívida/PIB.”
A República chega, por isso, a estes leilões bem posicionada no plano do calendário, mas com uma conta que fica cada dia mais cara, mostrando que preço da guerra no Irão não se paga apenas nos postos de abastecimento.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Portugal prepara-se para pagar o empréstimo a 10 anos mais caro em 12 anos
{{ noCommentsLabel }}