Palha da Silva: “A Oi teve uma desvalorização súbita demais para ser uma situação normal”

Luís Palha da Silva, gestor da Pharol, reconhece que a desvalorização da Oi foi "súbita demais" para ser considerada "normal". Por isso, a tentativa de fusão com a PT foi um negócio "estranho", diz.

A Pharol é hoje uma das principais acionistas da operadora brasileira Oi, mas deverá deixar de o ser quando a empresa concluir a conversão de dívida em ações e o aumento de capital em dinheiro previsto no plano de recuperação judicial a que está sujeita. Hoje, depois da fusão falhada entre a PT e a Oi, e depois de a antiga holding se transformar naquilo que é a gestora de participações Pharol, o atual presidente executivo, Luís Palha da Silva, reconhece que a situação não pode ter sido normal. Em entrevista ao ECO, dividida em quatro partes, Palha da Silva fala ainda dos atuais acionistas da cotada nacional.

A entrevista em quatro partes:
1 – “Não receber nada da Rio Forte é uma impossibilidade”
2 – “A Oi teve uma desvalorização súbita demais para ser uma situação normal”
3 – “Não podemos ficar impedidos de participar no aumento de capital da Oi”
4 – “Confiamos na justiça brasileira para garantir a boa governação da Oi”

Pode dizer-nos se um dos acionistas de referência da Oi, Nelson Tanure, é hoje acionista da Pharol? Tem essa informação confirmada, ou não?

Desde que, há cerca de dois anos, fomos desafios pelo juiz, pelo mesmo juiz que tratou da recuperação judicial (RJ), a ter um acordo com o Dr. Nelson Tanure, que nós temos contactos diretos com ele e que, inclusivamente, ele veio, no âmbito desse acordo, a ser administrador da Pharol. Ele é hoje administrador da Pharol. E, portanto, só lhe digo isto: ele está no conselho da Pharol. Nós temos um acordo que vem desse tempo, em que, em determinada altura, a Société Mondiale considerou que a Pharol era um dos grandes responsáveis pelos males da Oi (acho que devidamente mal informado, e ele próprio já confessou que, de facto, tinha sido mal informado). Chegámos a um acordo. As relações são, diria, saudáveis. Não há nenhum contacto muito profundo, mas ele é nosso administrador e isso resultou de uma vontade dele de participar, enfim, na vida da Pharol de uma forma direta. Resulta do acordo que, na altura, foi necessário.

É um acordo estratégico.

Eu diria que, para nós, foi um acordo mais tático. Porque, de facto, havia uma situação de grande conflito no mercado brasileiro. O nosso principal ativo está no Brasil e ter paz em Portugal significaria também admitir que ele pudesse saber tudo o que nós fazemos, mesmo conhecendo as nossas verdadeiras intenções como conselheiro da empresa. Se ele é acionista da empresa hoje, eu julgo que diminuiu consideravelmente a sua participação. Na Pharol, não sei a dimensão, mas julgo que, quando houve esta vontade dele e aceitação nossa de participar no conselho da Pharol, isso tinha presente que ele também estava muito interessado em ter uma participação social na Pharol. Mas não sei a dimensão.

Tanure será ratificado agora, na próxima assembleia-geral (AG) da Pharol.

A ratificação é uma obrigatoriedade. Foi cooptado. Havia um espaço vago e, como sabem, a cooptação é necessariamente, obrigatoriamente, objeto de ratificação na AG seguinte.

Há uns meses, disse que tentaria conhecer o novo acionista que comprou a posição de 6,17% do BCP, a High Bridge Unipessoal. Já conheceu esse acionista? Quem é que está por detrás dessa empresa?

Não, não sei. Não me custaria admitir que seja o próprio Nelson Tanure, mas não tenho nenhuma informação. Não temos nenhuma informação oficial, mas não me custaria admitir.

O Novo Banco continua como acionista de referência da Pharol?

O Novo Banco continua como acionista muito empenhado em acompanhar a gestão, o Conselho de Administração (CA) e, até ao momento, tem sido essa a sua posição. Também acha que é uma posição valorizável e, portanto, temos tido manifestações de total apoio às políticas que temos vindo a seguir.

Não me custaria admitir que seja o próprio Nelson Tanure [o comprador da posição de 6,17% que o BCP tinha na Pharol].

Luís Palha da Silva

Presidente executivo da Pharol

O que é que define como um sucesso neste processo de relação com a Oi? O que é que define para si e, depois, para os acionistas, como medida de sucesso da sua gestão?

Para mim, a pacificação da RJ — seja por que método for, mas temos bastante esperança neste processo de mediação lançado pelo juiz. Em consequência, o desenvolvimento do melhor desempenho operacional. E uma atenção muito grande a tudo o que venha a acontecer no mercado brasileiro. Portanto, sistematizando, primeiro: Pacificação da RJ; Segundo, uma valorização do nosso ativo por via de um muito melhor desempenho operacional; Em terceiro lugar, estar atento a todos os processos de desenvolvimento dentro do mercado brasileiro que possam potenciar ainda mais o valor da Oi dentro desse mercado.

E recuperar o investimento na Rio Forte?

Recuperar o investimento [todo], dificilmente poderá acontecer.

Fez a referência, há pouco, que os acionistas da PT, quando compraram a Oi, não compraram exatamente aquilo que achavam ter comprado. Pela experiência que tem, com o conhecimento que tem hoje da Oi, era possível, à data, perceber que aquilo não era exatamente aquilo que estava a ser comprado?

Fazer juízos de valor desse género, passados três anos, é muito difícil. Não posso ajuizar muito bem. Não conheço a situação. Sei que, em dois anos, uma empresa onde nós tínhamos uma opção de compra a 20 reais, passar para uma valorização de quatro reais, (e agora está estabilizado a 3,5, quatro reais; já chegou a menos de um real), é uma desvalorização súbita demais para que possamos dizer que estamos perante uma situação normal. Há situações normais de descalabro das empresas, porque uma evolução tecnológica não foi apreendida, porque uma situação no mercado não foi devidamente acautelada, uma qualquer litigância de valor enorme não foi devidamente prevista, mas… não se trata aqui disto.

Trata-se, de facto, de uma avaliação de uma situação operacional que não era, nem de perto nem de longe, aquela que foi, na altura, vista. E trata-se também de informações, como aliás os relatórios agora dizem, que indiciam enorme falta de controlo e que são responsáveis, por exemplo, pelo desaparecimento de mais de seis biliões de reais em depósitos judiciais. O relatório dos auditores é claro ao indicar que houve uma claríssima, gravíssima falta de controlo deste tipo de situações. Mas esta é apenas uma entre várias. Portanto, eu diria que não estamos perante uma situação normal. Os juízos que temos de fazer, faremos em sede própria se isso for necessário, mas não vou fazê-lo neste momento.

Zeinal Bava é o responsável por isso? Tendo sido o presidente da PT e acumulando o cargo com a presidência da Oi na fase em que o negócio se fez; com a constatação, com os factos que tem, com a auditoria que tem hoje na mão, como é que é possível que um gestor não tenha percebido isso?

Não vou personalizar isso. Entendo que a Oi é muito mais do que só um responsável. É um conjunto de acionistas na altura, uma equipa dirigente na altura. Não vou personalizar isso. Posso ter a minha opinião pessoal, mas não a vou tornar pública. Acho que, se há alguma responsabilidade, trata-se de responsabilidades das instituições.

E o negócio, com os dados que tem hoje… porque o tempo ajuda-nos a perceber isso… valeu pelo mérito próprio ou percebe, hoje, com a informação que tem, que tinha implícito outro tipo de condicionalismos, objetivos, que não apenas a criação de um operador lusófona?

Também envolve alguma especulação da minha parte, porque não tenho dados que me permitam dizer nada. Agora, volto a dizer: é estranho que uma empresa que tão cedo demonstrou este tipo de problemas tenha merecido que se tenha trocado, no passado, 100% de uma ótima empresa, como se veio sempre a verificar, por 39% de uma empresa que veio a entrar num processo de recuperação dois anos depois. É demasiado mau para ser uma coisa normal, como lhe digo.

Foi alguma vez ouvido, enquanto presidente da Pharol, para saberem informações sobre os processos Lava Jato, Operação Marquês, por força das relações entre PT/Pharol/Oi e construtores brasileiros?

Não. Rigorosamente nada. A Pharol não está envolvida nem nunca esteve em nada disso. Se outras pessoas tivera, estão a título pessoal e eu nunca fui envolvido, enquanto presidente da Pharol, para prestar declarações. Recebemos visitas de entidades que estavam a ver o assunto e facultámos toda a informação em cada momento. Mas nunca fomos ouvidos sobre nenhuma destas situações.

Com a experiência que tem do mercado brasileiro (deve ser dos gestores portugueses com mais experiência no mercado brasileiro, até por outras funções que teve na Jerónimo Martins), continua a ser interessante para as empresas portuguesas?

No mercado brasileiro tem de contar sempre com 200 milhões de consumidores, um país que tem a dimensão de um continente, que contém uma série de inúmeros negócios e, nessa medida, pode sempre interessar a investidores com vontades de participação ao nível nacional ou ao nível local. Se me pergunta, depois, se todas as instituições locais funcionam no sentido de um franco acolhimento dos investidores, a nossa experiência tem de dizer que, por exemplo, numa determinada circunstância, aquilo que parece ser mais sagrado para qualquer investidor, que é poder continuar a participar com a sua presença na gestão das empresas, nem sempre acontece. A nós, por exemplo, foram-nos retirados os nossos direitos políticos, de participar em Conselhos de Administração, de participar em assembleias-gerais. Evidentemente que não nos conformamos com essa decisão e estamos a recorrer. Mas a verdade é que, neste momento, temos essa dificuldade. E é evidente que essa falta de sensibilidade em relação ao investidor estrangeiro, neste caso concreto, em relação a nós, aconteceu.

 

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