Se o cacau está mais barato, porque é que os ovos de Páscoa têm o mesmo preço?
Queda do cacau ainda não chegou ao consumidor e indústria mantém preços para recuperar margens após choque de custos.
A queda acentuada dos preços do cacau nos mercados internacionais ainda não chegou ao bolso dos consumidores. É o que concluem o Financial Times e a CNN, que na época pascal foram analisar os preços. Em 2024, o preço do cacau atingiu valores nada doces: mais de 12 mil dólares por tonelada. Atualmente estão em 3300 dólares, mas para quem passou no supermercado ou lojas da especialidade nada mudou – os ovos de Páscoa continuam nos mesmos valores. Estes são os números que as publicações divulgam:
- Os preços dos doces aumentaram 11,6 % no mercado norte-americano no último ano, diz a CNN.
- Os preços subiram cerca de 12% nos EUA e de 9 % no Reino Unido.
A explicação para este aumento é o desfasamento entre o momento em que a matéria-prima é comprada – o cacau – e o momento em que o chocolate chega às prateleiras. “O chocolate atualmente disponível nas prateleiras foi produzido com cacau adquirido quando os preços estavam no pico”, explica David Branch, responsável do Wells Fargo Agri Food Institute, citado pela CNN. A mesma justificação pode ser lida no Financial Times (acesso pago), mas nas palavras de Sammy Rolls, da Expana. “Há um intervalo entre o momento em que as empresas compram cacau e aquele em que o chocolate é colocado à venda com um determinado preço”.
Assim, o efeito de uma descida de preços só poderá ser sentida pelos consumidores muitos meses depois. Mais ainda, explicam, quando em períodos de campanhas importantes como é o caso da Páscoa – com ovos, amêndoas e coelhinhos de chocolate – a produção é grande e planeada com grande antecipação pelas empresas.
Para o Financial Times, há outra razão para não se verem mexidas importantes nos preços dos doces. A descida dos preços está a ser usada para compensar as perdas sentidas quando o preço do cacau tocava as nuvens. “Se houve pressão sobre as margens na subida, é natural tentar recuperar na descida”, afirmou Thijs Geijer, economista do ING especializado em alimentação e agricultura, citado pelo Financial Times.
Para quem já previa um Natal de 2026 ou uma Páscoa de 2027 mais doce no paladar e na carteira, os analistas ouvidos pela CNN deixam alertas. A matéria-prima pode esta mais barata, mas como para todo mundo, aumentou o preço da energia, o transporte e até as embalagens. A situação geopolítica não dá sinais animadores. Um exemplo citado pela CNN é o de Chris Taylor, proprietário da Li Lac Chocolates, a mais antiga lojas de chocolates de Manhattan, afirmou à CNN que conseguiam absorver o aumento do preço do cacau ou das embalagens, “mas ambos ao mesmo tempo foi brutal”. “Não acredito que regressemos aos níveis de há três anos, mas esperamos algum alívio”, acrescenta.
Em vez de reduzir os preços, os fabricantes e vendedores estão a adotar estratégias como a shrinkflation, isto é, produtos mais pequenos ou com menor teor de cacau. Segundo o Financial Times, alguns ovos de Páscoa são agora mais caros e mais leves, com aumentos de cerca de 40 % no preço por 100 gramas em determinados casos. Outra estratégia adotada foi reformular receitas. Alguns produtos deixaram de ser de chocolate e passaram a ser descritos como “com sabor a chocolate”.
Como se comportam os consumidores? Segundo o Financial Times, as vendas de chocolate caíram 6 % na Europa e 4 % nos Estados Unidos nos seis meses até janeiro. Mas, sazonalmente, resiste. “Os consumidores não perderam o apetite pelo chocolate”, diz David Branch à CNN, sublinhando que continua a ser “um pequeno luxo acessível” para muitos.
Com vendas acima do esperado está também a Ferrero, como explicou esta semana o diretor-geral da empresa em Portugal, Max de Simone, ao ECO. “Estamos à espera de uma aceleração, porque é uma semana em que os consumidores portugueses terão recebido o salário do mês. É uma diferença em relação ao ano passado, em que a Páscoa foi numa data diferente”, avançou. A empresa detém marcas como Nutella, Ferrero Rocher, Kinder ou Mon Chéri.
Nem todos olham para os dias após a Páscoa com tanto otimismo. Como noticiou o ECO, depois destes feriados encerram as 20 lojas Hussel, detidas pelo grupo Jerónimo Martins, por terem não conseguido equilibrar o aumento dos seus custos e a necessidade de manter os preços competitivos.
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